domingo, 23 de agosto de 2009

"Pra quem nasceu pra brigar"

Por Alexandre G. Marcati

Não é
sem temor
que ele enfrenta
seu tumor

terça-feira, 23 de junho de 2009

"Soneto alexandrino para meu amigo Alexandre"

Por Diogo Cronemberger

Pensamento distante, tudo quanto tenho.
Saudade da princesa há pouco fabricada:
Sozinha, encastelada, cana acre de engenho...
Morto o fogo, o vestido roto, resta o nada.


Cantava, suspirava; o pai com duro cenho.
O pai furou-lhe os olhos, pois de moça ousada.
Não mais veria, tal como assum pouco inhenho,
Experiente, sem janelas, desflorada.


Assim como assum preto não: canto era pranto.
Não cantava, mas sangue chorava, qual fonte.
Afogou-se, acabou-se, a quem amava tanto.


Cega moça-donzela às margens do Aqueronte,
Que eu criei, que o pai matou, que ele é ,sim, meu manto.
Alma não restou, só o óbolo de Caronte.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Joana Serrana"

Por Alexandre G. Marcati

Joana Serrana,
Subiu a montanha,
Um tiro no ventre,
Foi enterrada.

Joana Serrana,
Subiu a montanha,
Atirei em seu ventre,
Foi enterrada.

Joana Serrana,
Subiu a montanha,
Seu filho no ventre,
Foi enterrado.

Joana Serrana,
Meu filho no ventre,
Enterrei na montanha,
Está acabado.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Julgamento - #1

Por Alexandre G. Marcati.


A névoa espessa e a luz branca impediam que se visse qualquer coisa à frente do próprio nariz. Andou por alguns minutos naquele limbo, até encontrar um vulto. Uma voz grossa e imponente começou a falar, causando calafrios. A névoa começa a se dissipar.

-         Você sabe onde você está?

-         Não... parece um sonho.

-         Você está morto, esse é seu julgamento.

A névoa agora já era fina o suficiente para ver que o vulto era um senhor alto, de barbas brancas. Não era preciso ser um gênio para ver que aquele era Deus.

-         Do que sou acusado?

-         De ser descrente. Você negou minha existência, não aceitou a minha palavra, recusou-se a Me amar. Não posso deixa-lo entrar no paraíso. Você irá para o inferno.

-         Não pode me deixar entrar no paraíso? Pensei que Você podia tudo.

-         Bom... Tecnicamente Eu posso. Quis dizer que não era Minha vontade.

-         Então, afinal de contas, tem uma coisa que Você não pode.

-         Eu posso tudo! Mas certas coisas Eu não quero!

-         Pois é, Você pode tudo, menos ir contra a Própria vontade!

-         Não é verdade! Eu posso, mas não quero!

-         Só acredito vendo!

-         Pois bem! Contra a Minha vontade, você há de entrar no paraíso!!

Deus sacudiu sua varinha mágica e em um instante o ateu estava no paraíso, cercado de anjos e santos. Jesus andava calmamente pelas nuvens, abençoando a todos. Majestosos arco-íris cruzavam os céus e crianças brincavam tranqüilamente.

 

A eternidade estava apenas começando, mas não demorou muito para ficar evidente que aquilo era um tédio dos infernos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

"Palíndromos"

Por Diogo Cronemberger
O pequeno Guilherme adorava palíndromos. Tudo começou com palavras simples, como “ovo”, “asa”, “esse”. Ouvia tais vocábulos (nos dois sentidos) como Kant percebia as flores. Eram belos.

O pequeno Guilherme cresceu, deixou de ser pequeno. Guilherme então. Ainda adorava palíndromos. Conheceu os clássicos: “Roma é amor”, “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”... Conheceu aqueles de outros idiomas: “Madam, I’m Adam”, “Atale, demoniaco Cain, ó me delata”... Começou a criar os próprios, bastante interessantes: “Assim, após a sopa, missa”, “Eva, admiro o rim da ave”...

A sofisticação crescia, assim como a reputação de Guilherme. Antes dos vinte e cinco anos, já se transformara no grande Guilherme, homem de palíndromos respeitado internacionalmente. Mas lhe faltava algo... Adoeceu. Ficou meses sem sair de casa. Quando melhorou, saiu.

Passeando por um parque florido, inspirando ar puro, conheceu um palíndromo humano, talvez o mais belo que já conhecera. Anna. Tímido, queria puxar assunto, mas não sabia como. Pensou tanto que o pensamento se concretizou em palavras: “Amor, me ama em Roma? Somos seres, somos?” Anna: “Ahn? Desculpe, tenho que ir.” Guilherme: “Adias a data da saída!” Anna sorriu. “Mas o que quer de mim?” Guilherme: “Ana, case, esse é sacana!” Anna ficou perplexa. Guilherme: “Ato idiota... É... Desculpe, são os palíndromos...”

Assim, iniciaram uma longa e atrapalhada conversa. As frases de Anna não eram perfeitas e sem sentido como aquelas de Guilherme. Eram engraçadas, tinham substância. Conversando sobre um filme dirigido por Aronofsky (enfim outro assunto que não palíndromos), ela disse: “Não use drogas, ou terá o braço amputado e dará o rabo em troca de uns trocados.” Realmente um final moralista. Guilherme morreu de rir.

Gostava de conversar com Anna. Gostava de Anna. Um palíndromo humano que mudou sua vida, causando uma confusão epistemológica e sentimental. Anna era sua nova flor. Era bela (em todos os sentidos). Encontraram-se mais vezes. Encontrar-se-iam mais (quem sabe?) não fosse uma recaída da doença. Palindromia. O grande homem dos palíndromos faleceu. Nunca mais ouviu Anna. Um final triste, mas realista.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

"Encontro inusitado"

Por Diogo Cronemberger

Meu amigo de todas as horas e eu andávamos por uma estradinha de terra. O caminho era deserto, mas achávamos que o Lobo Mau não estaria por perto. A vida, no entanto, não cansa de nos surpreender. Chegando a uma encruzilhada, vimos o demônio. Sim, ele mesmo, e parecia com uma professora que tive no primário. Como todos sabem, esse ser abominável (o demônio) adora jogos, apostas, esse tipo de coisa. E ele fez a seguinte proposição: um concurso de textos, meu amigo e eu contra ele. Se ganhássemos, seríamos imortais. Passaríamos a fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Como Woody Allen, acharia melhor atingir a imortalidade não morrendo, mas tudo bem. Se o demônio ganhasse, teria nossas almas. E algo mais... Única regra: nada de poesia, só prosa. Não achei que o demônio tivesse preconceitos, mas vivendo e aprendendo, não é mesmo? Parênteses: esqueci-me de explicar que éramos, meu amigo e eu, aspirantes a escritores. O concurso teria início quando perguntei: “E quem vai julgar?” O demônio disse: “Eu”. Comecei a rir. Ele fez uma cara amedrontadora. Parei de rir e fiz cara de amedrontado. Em seguida, meu amigo falou uma coisa muito engraçada, mas jurei que não contaria a ninguém. Mantenho o juramento. “E não tem um tema?” Não me lembro quem perguntou. Não havia. Céus, como é difícil criar livremente, tirar algo do nada, talhar uma pedra que não existe no meio do caminho...

Enquanto o demônio escrevia, pedindo ajuda a escritores de envergadura que foram para o inferno, eu não sabia o que fazer. De repente, meu amigo sugeriu um repente. Tirou a viola e começou: “A gente não é jegue, a gente é intelijumento, vamo ganhar do Coisa Ruim, ó meu amigo, tome tento...” Eu, surpreso com a viola e o cantar nordestino, disse: “Não sabia que você... (Inspiração) Pois então agora é hora, vamo cantar aos quatro ventos, é o melhor texto do mundo, com palavras de cimento...” “Que seja um templo inquebrantável, resistente ao agourento, seja urubu, seja beata, arquitetura admirável do período Quatroccento...” “Cada vez melhor...” Ele, empolgado: “Adão conheceu Eva, a Eva conheceu o Adão, e no fruto proibido ela deu uma dentada, eu sou mesmo cabra macho, não permito isso não, e mulher feia e urubu comigo é na pedrada...” “Foi aí que começou tudo o que existe hoje em dia, o paraíso perdido nunca mais ninguém achou, é mulher traindo homem, lombriga e disenteria, é Van Gogh na pobreza e banda emo dando show...” Continuamos, continuamos, e a canção contou a história do mundo. E era maravilhosa! Um pouco machista, sim. Mas a boa arte é politicamente incorreta, como gostam de dizer os intelectuais. O texto mesclava o erudito e o popular, à maneira de um Guimarães, à maneira de um Cervantes... Ganharíamos o concurso. Imortais! Mais que isso, famosos, respeitados, talvez até ricos. Foi então que me dei conta: “Mas isso que a gente fez é poesia, caralho...” Meu amigo: “Ah, é...” E ficou tristonho. E nunca mais voltou a sorrir.

O texto do demônio, em prosa, era mais que maravilhoso. O último parágrafo é lindo e dá uma boa idéia: “Finalmente, caiu a noite, um véu negro e brilhante a esconder do deus Sol o triste destino daqueles dois homens. A tragédia se consumaria. Entreolharam-se, sem mais nada dizer. Chegaram às entranhas do inferno. Não havia escapatória. Seu longo trajeto, toda a sua história e as suas histórias, suas aspirações, tudo se transmudava em nada. Perderam a alma, e algo mais. Afinal, depois de tudo por que passaram, chegou, como sempre chega a todos, o fim.”

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

"Quinze anos"

Por Diogo Cronemberger

Fabiana tinha apenas quinze anos quando ele a conheceu. Uma menina. Dizer que tinha corpo de mulher é um clichê idiota. Não gosto. Melhor dizer: era uma réptil. Em breve descubro que isso também é um clichê idiota... Para o homem que amava as mulheres, aquele do filme do Truffaut, existiriam as altas e esguias e as maçãzinhas. Mas também existem as mulheres que se assemelham aos répteis. Não que sejam desprezíveis. Pelo contrário. Não me refiro ao figurado, mas à figura: aos olhos, ao nariz, aos cabelos, aos pés pequenos. Mais ou menos como Monica Vitti, aquela dos filmes do Antonioni. Fabiana era uma linda réptil adolescente. E ele já entrava no mundo adulto. Homem de negócios.

Uma relação proibida pela lei, pela moral e os bons costumes, pelo IBAMA, por tudo e por todos. Acima de tudo por ele mesmo. Por sua consciência. Esperava que ela crescesse. Então, lhe fazia a corte, o que já andava fora de moda, ao passo que se tornava seu confidente de histórias amorosas. Ele achava engraçado tudo quanto acontecia com ela, sua capacidade de sempre se apaixonar por “bobos”, como ela mesma dizia, os arrependimentos constantes e o retorno, como um vício, a relacionamentos do mesmo tipo. Ela sempre dizia, de forma engraçadinha e com seu indefectível sotaque carioca: “Aleivosia master!” E ria gostoso. Ele dizia: “Tem que procurar um homem diferente.” No fundo, esperava que em pouco tempo ela o procurasse. Mas o tempo passou e isso nunca aconteceu.

Alguns anos se passaram. Maior de idade, ela continuou a mesma. Muito bonita, muito interessante, louca por homens iguais, “bobos”, deixando-o louco, ambos sofrendo. Quinze anos se passaram. Ela continuava a mesma. Continuava com quinze anos, infantil, “boba”. Se eu dissesse que ele continuou seu confidente por anos, que ele continuou sofrendo eternamente, a história seria apenas patética. Na verdade, ele até encontrou alguém especial. Casou-se com uma mulher diferente. Não a mulher de seus sonhos, mas uma mulher real, de muita carne e muito osso. Tornou-se um homem de negócios feliz. Contudo, tinha que confessar: jamais esquecera Fabiana.

Provavelmente, Fabiana o esqueceu. Seguiram vidas separadas. Os sentimentos dele eram exacerbados, as emoções eram verdadeiras, transparentes. Ela preferia um tipo mais convencional. Acabou se casando com um homem de negócios, como ele, mas totalmente diferente dele. Businessman. Falava o que ela queria ouvir, falava o que os caras falam na TV. Gostava de uma peladinha com os amigos no fim de semana, de umas namoradinhas, essas coisas tradicionais, que dão a segurança que alguém como Fabiana buscava, sempre meio perdida. Aleivosia master.

Reencontraram-se apenas uma vez, mais quinze anos depois, numa festa na casa de um amigo em comum. Falaram banalidades. Ela continuava gostando de Donovan, o que era um ponto positivo, uma lembrança boa. Mas só. Entretanto, ele tinha que confessar: jamais esquecera Fabiana, que às vezes ressurgia como uma lembrança boa. Ele tinha o meu nome. Ele era eu.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

“Deus e o Diabo na sala de estar”

Por Alexandre G. Marcati

O Diabo sentou-se na poltrona maior, mais elegante e mais confortável. Deus sentou-se na outra. Serviu whisky para ambos, levantou o copo e propôs um brinde. O Diabo, com um sorriso irônico, disse bem alto:
- Saúde!
Os dois deram risada. Não uma risada alta, espalhafatosa. Um riso contido de quem entende uma piada que só pode ser entendida por poucos, uma piada interna.
- Quanto tempo que a gente não toma um whisky juntos, comentou Deus, com um sorriso simpático.
- Já faz tempo mesmo... A gente se afastou, né. Também, a gente ta sempre ocupado, difícil arranjar um espaço na agenda que dê certo pros dois...
- É... E depois que você casou ficou mais difícil ainda.
O Diabo ri.
- Lá vem você com essa história... Você nunca gostou mesmo da Ritinha...
- Não é que eu não goste dela, eu só acho que ela não é certa pra você.
- É porque ela é evangélica, não é?
- Olha, você sabe o que eu penso disso, mas não vou nem entrar no mérito da questão...
- Deus, você tem que ser menos preconceituoso. Nem todo evangélico é daqueles fanáticos que a gente vê na TV.
- Luci, você ta querendo ensinar o padre a rezar missa? Eu sei como são os evangélicos. Aliás, eu sei tudo.
- Você sabe tudo, mas ainda assim você é incapaz de ver as coisas pelo ponto de vista dos outros. Talvez por isso mesmo...
- Putz... Troca o disco, cara. Toda vez que a gente se encontra é a mesma coisa... vem você me criticar, dizer que sou egoísta, que sou isso, que sou aquilo... porra, cara, não dá pra gente só relaxar e tomar um whisky?
- Não, meu, é sério... Por exemplo, você fica infernizando a vida daquele povo na Terra, e pra que? Pra eles te ‘amarem’ e te ‘louvarem’... Isso é o cúmulo da carência!
- Não vem com essa, que você faz a mesma coisa!
- Pelo contrário! Quem gosta de mim, gosta porque simpatiza comigo, e não porque eu fico infernizando a vida deles até eles falarem que me amam. Nunca pedi pra ninguém falar que me ama. Aliás, pedir isso é carência demais, meu... Tenha um pouco de dignidade!
- ...
- Desculpa, Deus, mas alguém tinha que falar isso pra você...
- Não, é verdade... mas eu já tentei de tudo... Já tentei ser duro e vingativo, já tentei se compreensivo e misericordioso, já mandei um filho em forma de homem pra passar a mensagem “ei, pessoal, olha, sou igual a vocês!”, mas nada funciona, ninguém gosta de mim...
- Também não é assim, tem muita gente que gosta de você e não é por medo da punição do juízo final.
- Sei lá... Acho que vou indo, cara. Preciso ficar um pouco sozinho...
- Eu entendo... Pode deixar que eu fico de olho na Terra enquanto isso...
- Valeu, cara, você é um amigão. Falou, cara.
- Falou! Se cuida!
Deram um abraço e Deus foi para um retiro espiritual. Até agora não mandou notícias.

sábado, 29 de novembro de 2008

"A vida"

Por Alexandre G. Marcati

A vida começa.

“Não põe a mão na boca”.

“Não põe o dedo no nariz”.

“Não, não pode comer doce antes da janta”.

“Não, não pode sair à noite”.

“Não, não pode ficar fora depois da meia-noite”.

“Não, não quero ficar com você”.

“Não, não quero namorar com você”.

“Não, não vou dar pra você”.

“Não, não vou fazer isso, seu nojento”.

“Não, ISSO eu não faço MESMO”.

“Não, estou com dor de cabeça”.

“Não, não pode comer sal”.

“Não, não pode comer fritura”.

“Não, não pode comer carne vermelha”.

“Não, não pode continuar trabalhando”.

“Não, não pode se levantar”.

“Não, não tem cura”.

A vida termina.